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HISTÓRICO:
- 01/08/2008 a 31/08/2008
- 01/07/2008 a 31/07/2008
- 01/06/2008 a 30/06/2008
- 01/05/2008 a 31/05/2008


Sombras
Vejo neste outro o que desejei daquele
e naquele via todo o tempo um outro...
Ah! Como é difícil estar num lugar só!
E só, num lugar, estamos sem parar!
Autora: Rosa Mattos

O tema da redação era “Cachorrinhos”. Todos pensaram por um instante e começaram a redigir. Ele continuava imóvel. Não tinha a menor idéia do que iria escrever. Não tinha cachorros. Nem gostava muito deles. As idéias não vinham. O tempo passando. As mãos tremiam. A caneta pronta para entrar em ação. Qualquer idéia servia.
Tanto olhou para a folha que passou a visualizar cachorros andando nela. Eram dois vira-latas, filhotes. Corriam pelas linhas, desciam e saltavam, latindo sem parar. Desenhou uma vasilha e encheu de bolinhas. Quem sabe se vissem a ração parassem com aquela correria.
O relógio devia estar errado. Os minutos disparavam. Os cãezinhos subiam e desciam as linhas. Desenhou outra vasilha e riscou falsas ondas, parecendo estar cheia d’água. Eles beberam um pouco e continuaram a baderna.
Como iria se concentrar com tanta algazarra? Talvez eles precisassem beber direto da fonte. Desenhou ao lado das vasilhas uma cachorra, deitada, com suas tetas salientes, cheias de leite. Deu certo. Arrá! Era isso. Os cachorrinhos foram direto para ela e mamaram felizes.
Tic-tac, o relógio indicava que ele só tinha mais 15 minutos. Ao contrário de sua inspiração, o suor brotava, escorria de sua testa, pingando no chão da sala silenciosa, onde todos escreviam, menos ele. O professor, de vez em quando olhava o relógio e voltava para sua leitura. E ele naquele pavor. Ai, socorram-me Santos das Boas Redações! Não, não adiantava apelar.
Voltou-se para a folha em branco. Os minutos cruelmente voando. Os cachorrinhos ainda estavam lá. Agora pulavam em cima da barriga da mãe. Que bagunça! Saiam da minha folha! Que nada, faziam festa agora que estavam alimentados. Saltavam de um lado a outro, correndo e latindo mais alto do que antes.
Vendo toda aquela confusão e o tempo que encurtava, para seu desespero, teve enfim uma idéia. Ia escrever sobre filhotes brincalhões e bagunceiros. Qualquer coisa, mas tinha que ser depressa, porque aqueles pontos eram muito importantes, já que não estava nada bem naquela matéria.
Dois minutos. Pegou a borracha e preparou-se para apagar todos os desenhos, no exato instante em que os cachorrinhos começaram a mastigar, morder, e destruíram completamente a folha de papel.
Autora: Rosa Mattos

Olhou o corpo inerte do amado
jogado no asfalto, contra o meio-fio.
Sentou-se e esperou em vão
um movimento, um sinal de vida,
mas ele continuava estirado no chão.
A sirene indicava que a ajuda enfim viera.
Tarde demais, ele se fora, para algum lugar
onde não sentirá mais fome, nem frio - já não era.
Retornou para um apartamento lutuoso,
onde até o piso chorava com seus passos.
O silêncio ecoando pungente pelos cômodos.
Com as mãos trêmulas e a alma sangrando,
Ligou a televisão num gesto instintivo e
segurou bem firme o controle remoto.
Precisava sentir o domínio sobre algo.
Autora: Rosa Mattos

Perdição
Olhos obcecados, fixos, perdidos
No peito um monstro esfomeado
O sangue queimando nas veias
Emoção corrosiva e inesperada
No rosto um vivo calor acendia
Fazendo latejarem as têmporas
Abrindo caminho até ela, vendo
Enredado em algum turbilhão
Persegue dementes impulsos
Febris, aprazíveis, dominantes
Ávidas mãos viajam delirantes
Qualquer idéia tonteia e dispara
Em fagulhas dores pelos ossos
Inebriante fome que não cessa
Será isso uma paixão?
E se for ...
Tem salvação?
Autora: Rosa Mattos

Entre Fios e Nós
Lentamente foi fiando dentro de si
um grosso manto de lã, para cobrir-se
nos momentos de solidão e desamparo.
Enquanto suas mãos hábeis teciam,
seu coração e sua mente se fechavam,
numa redoma superprotetora de fios e nós.
E foi quando findou seu intento,
que enredou-se nas tramas
de luz e escuridão.
Abotoou-se até o pescoço
de esperanças vãs.
Já não sabia mais
se era dia, ou noite.
Seu manto de nada serviria,
agora que perdera o senso.
Autora: Rosa Mattos

Insatisfação
Anos a fio ela puxou daqui, puxou dali
Reclamando, criticando, censurando...
Não sossegou até conseguir moldá-lo
E encaixá-lo exatamente a seu gosto
E quando ele ficou como ela queria
Decepcionou-se irremediavelmente
Ele não era mais aquele
por quem se apaixonara.
Autora: Rosa Mattos

Recomeço
Houve um tempo em que senti amor
E ligada a você fiz a volta ao mundo
Sem sentir a pressão das correntes
Dançava feliz numa camisa de força
Recusando aceitar a pesada ameaça
Que balançava sobre nosso romance
Meu coração tinha pretensões eternas
E por isso o adeus foi ainda mais cruel
Por fora controle total, por dentro ruína
Quando se ama muito fica a sensação
De não ter feito o bastante, daí a culpa
O sentimento de derrota oprime e corrói
Os dias passam, a vida segue, acontece
Sou despertada para novos desejos ali
Embora os antigos ainda reinem por lá
E não renego, me apego e recomeço,
Entendendo, enfim, que há infinitos
Modos de se sentir o amor!
Autora: Rosa Mattos
Exposição
As idéias emergiam de sua mente
Tal qual um mergulhador ao voltar à tona
Mas a tela branca continuava incólume
Quando enfim arrojou-se na primeira pincelada
entrou num transe e não conseguia mais parar
Pintou febrilmente durante muitas horas e
extenuado afastou-se, admirando sua obra
Incompreensíveis formas
aos olhos de um leigo
Mas para ele sua alma estava ali
em cada traço, cada toque
Assustado por ter-se revelado tanto, destruiu a tela
Pegou outra e desenhou uma natureza morta.
Autora: Rosa Mattos
Doce Submissão
As cortinas brancas ondulavam nas janelas
Contrastando com o vermelho das paredes
E o cetim preto dos lençóis da grande cama
Ao longe o oceano e aquele calor diabólico
Aumentavam sua excitação, sua ansiedade
Que explodiriam tão logo seu amor chegasse
Uma suave melodia dominava o ambiente
Havia preparado tudo para surpreendê-lo
A roupa de couro, o chicote, as algemas...
Quando ele chegou, entregou-se a ela
Com tamanha paixão, como se quisesse
saciar uma sede de muitos e muitos anos
Não se assustou com o cenário, gostou...
E ao receber a primeira chicotada, gemeu
Deixou-se dominar, compartilhando a loucura
Amaram-se assim a noite toda, duelando
Num misto de ânsias e suspiros e gozos
Na vertigem dos sentidos, sentindo tudo!
E quando exausto ele quis descansar
Ela abraçou-se a ele e adormeceu
Para horas depois ordenar ...
Venha!... Submeta-se!
E ele foi!
Autora: Rosa Mattos

Curvas Perigosas
Nascera sob o signo da exuberância
Bela, ousada, sem papas na língua
Extravagante, impetuosa, kamikaze
Vive o cotidiano com tamanha fúria
Que não raro se corta e se perfura
Expurgando emoções pelos poros
Alma aberta como asas de um anjo
Sedenta e faminta de amor e tesão
Provoca, avança e depois se retrai
Valoriza mais a busca que o achado
Quando o risco se torna previsível
Abandona o oásis e segue adiante
Como uma deusa da abundância
Essa balzaquiana não teme nada
A não ser o flagelo do desamor
Nota: Poema feito para alguém,
ou para você!
Autora: Rosa Mattos
... E nada!
Abrindo uma clareira como um lenhador
... E Nada!
Posicionou-se e arremessou um arpão
Surtiu efeito. Alguma coisa aconteceu
Humm! Alarme falso. De novo... Nada!
Exaurido, nem por isso menos obstinado
Armou-se com um alicate extra-grande
E conseguiu, finalmente
Extrair de sua mente
.... uma Boa Idéia!
Buraco Negro
Sentado no chão da sala, fitava o nada
O medo correndo entre seus labirintos
com sua cauda gigantesca e destrutiva
Contaminando sua corrente sanguínea
Fechou os olhos, esperando pelo fim
Enquanto descia mais e mais no vazio
Num poço de lama pegajosa e escura
Que aniquilava seus sonhos, sua vida
Queria tecer um fio de luminosidade
Em meio ao subterrâneo de sombras
Que sugavam sua energia, sua alma
E passeavam inexorável dentro dele
Rastejou-se até o telefone e suplicou
Implorando socorro num grito de dor
Enquanto a agulha o acompanhava
Pois tinha costurado seu final trágico
Vislumbrou mãos que o amparavam
Resgatando seu espírito enegrecido
Rompendo uma barreira nebulosa
Da fronteira do breu para a luz...
E ganhou uma nova chance.
Autora: Rosa Mattos
Foi Sem Querer!
Há uma subversão no meu querer
Que nem sempre deixo transparecer
Pelo receio absurdo de me perder
E se eu me perder, onde irei parar?
Por acaso você saberá me encontrar?
Não será no paraíso que irá me achar
Este desejo latente em transgredir
Provocar, avançar e fazer você rir
Assustaria você a ponto de partir?
Ahh, quantos segredos esconde
a alma de uma mulher comportada!
Eu quero dizer mais, bem mais,
Porém... melhor parar por aqui
Você pode ler e entender
Que não foi sem querer!
Autora: Rosa Mattos
Nosso caso é um folhetim
Tem dias de cetim e outros
de marfim, outrossim (?)
Quando ficamos a fim
Não existe tempo ruim
Mas tem que ser dito
Tudo tintim por tintim
Senão deflagra o estopim
Destruindo nosso jardim
Será um vício nos
querermos assim?
Autora: Rosa Mattos
Sou Assim, Cheia de Mim
Multifacetada me encontro
Na busca pelo que sou
Num interjogo
misterioso
E a todo instante me encanto
E me desencanto, por mim,
e pelos que me cercam
Numa dualidade
pulsional vil
Nenhum encantamento é eterno
Que não possa se desintegrar
Quando saciada a pretensão
E nesse processo amadureço
e feneço e me restabeleço,
sem mudar o que sou
Levanto,
Aliso minhas asas
Lambo minhas feridas
e me reergo sem anestesia.
Não jogo sentimentos fora
Tudo é importante
Dentro e fora
de mim
Lá onde tudo se esconde
Existe muito mais ainda
Para mim e
para você!
Mas lá onde? Ora, lá...
em meu coração!
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